Eu nos dardos sou a modos que pró fraquinha, mas na vida há dias em que acerto no alvo.
Domingo, foi um desses dias.
A minha pontaria foi tanta que num só dia consegui ir a terra alheia celebrar o santo local e deixar terra própria em dia de celebração, à custa de uma neve raramente vista.
A família meteu-se toda no carro com destino a Aveiro.
Viagem mais comprida que o costume porque as senhoras "A's" - eu não quero acusar ninguém, mas foram as senhoras A23 e A25 - de tão brancas nos obrigavam a seguir não raramente a 60 kms/hora.
Chegámos com mais apetite ao WC e ao almoço que o previsto.
Satisfeitos bexiga e estômago, fui levada pela Srª D. Bailaroska, que nestas coisas de desencaminhar uma alma para bons programas é perita, para o bairro da Beira-mar, para uma certa e determinada casa, de uma certa e determinada Anónima apanhada desprevenida.
Desprevenida fui eu para a Capela de S. Gonçalinho. Não sabia bem pró nem porque ía.

Vai-se a ver o tal Gonçalinho, que pelo nome se vê logo que era menino bem, era uma moço cheio de mania que, talvez ansioso por boa publicidade que o ajudasse, quiçá, a vencer algumas eleições na povoação fortificada em que vivia, pensou para consigo "oh pá, e se eu fosse dar uma esmolinha aos leprosos?". Se bem o pensou melhor o fez. Mas não se foi meter no meio dos leprosos! Isso é que não, que leproso é coisa um bocadinho nojenta de se conviver. Montou-se no cimo da muralha e vai de atirar pãozinho cá de cima. Ora não me parece que o Gonçalo fosse tipo para atirar o pão quentinho do seu próprio pequeno-almoço aos leprosos. Certamente atirava as sobras dos dias anteriores. E quem sabe até se, entediado, não fizesse mesmo pontaria ao

leproso. Certo é que os leprosos saiam dali mais estropiados do que o que tinham chegado e poucos haveria capazes de roer o paposseco sem perder parte da gengiva. O que mais me espanta é que nunca os leprosos se tenham organizado em sindicado e realizado manifestações à beira da muralha, atirando ao ufano Gonçalo, porque não, dedos e outros apêndices que insistissem em não permanecer ligados ao corpo.
Se o fizeram o episódio foi abafado e a grande manobra publicitária do Gonçalinho teve sucesso tal que ainda hoje o dito não só é santo como é popular. Mas pelo menos a mim não engana ele.
Em homenagem a esse grande marketer, todos os anos se organiza uma cerimónia muito

peculiar, ainda que não tão
sui generis como aquela que se organiza na Espanha (Espanha, não Beira Interior), em que atiram uma cabra do campanário da Igreja abaixo.
Os Aveirinhos e alguns turistas ocasionais, como eu no Domingo, sobem ao cimo da capela por umas escada de caracol não apta a afanados com kilos de cavacas às costas. Não são cavacas de lenha, são das docinhas, mas que ainda assim se prestam a partir a cana do nariz aos que cá em baixo não se precavem contra a queda das mesmas. Porque é esse o propósito de subir lá a cima: atirar cavacas à multidão que está cá em baixo, no exterior da capela, escavacando no processo as ditas cavacas ou a multidão, para que sinta as dores dos leprosos.
Ainda assim a multidão não desmobiliza, porque não há como roer uma cavaca abenço

ada para acabar bem o dia.
Deixámos Aveiro e os seus costumes selvagens de regresso a casa, convencidos que a nossa teria sido neve de pouca dura. O tanas! Estava-se a guardar a maior parte para o nosso regresso.
Não querendo fazer a desfeita, em vez de nos enfiarmos em casa a recuperar da viagem, num largo cheio de varandas com fotógrafos de robe, andámos a atirar bolas de neve uns aos outros, que não é coisa que se possa fazer todos os dias. E para a qual, como em tudo, é preciso ter pontaria.
(P.S.: Sr. S. Gonçalinho, brincadeirinha, ok?)