
Uma pessoa não deve gabar-se do que não tem, nem chorar-se do tem.
E uma pessoa deve respeitar os provérbios, pelo sim pelo não, não vá o provérbio dar-nos na cabeça e fazer dói-dói, aproveitando o ensejo para nos esfregar na cara um belo "eu bem te tinha avisado".
Ora pois, a modos que...
... nunca, jamais, em tempo algum me gabarei eu de andar nos mesmos preparos em casa que os artistas das novelas, ou de dar o mesmo preparo à minha alegre casinha, que dão às casaronas das novelas. Trata-se de uma impossibilidade, ainda que não física, pelo menos logística. Na minha casa vive-se e vive-se à vontade. O que implica que geralmente andem tudo e todos de pantanas.
Arrumar não pode ser todos os dias, que cansa, e o primeiro que faço quando chego ao meu lar doce lar é descalçar-me e, não poucas vezes, enfiar o pijamita, às vezes pró coçado e folclórico.
Aquela gente e aquelas casas são artificiais, de certezinha! Nem sequer têm WC! E ainda que de quando em muito tomem banho, chichi ninguém faz. E de tal coisa muito menos me gabarei eu...
... não posso chorar-me da falta de cerejas (fruta pouco apropriada para artista e casa de novela...). Se de alguma coisa me posso chorar é do excesso delas. Não que o meu estômago não dê conta das ditas (que este ano estão de trincar e salivar por mais), o resto do corpo é que não acompanha. Comê-las é giro, sim senhor. Apanhá-las já não tem tanta piada. Fruta ordinária esta que, penduradas numa escada a 4 metros de altura, apanhamos, comemos, comemos e continuamos a apanhar e não à forma de acabar. É desesperante, salvo para os passarinhos que lucram com a nossa impaciência. Enfim, chega de me chorar de tarefas agrícolas, que se não qualquer dia tenho por aí o Alberto Caeiro a deixar-me comentários insultuosos, o sacana preguiçoso.
Nem gabar, nem chorar a vidinha. O melhor é mesmo ficar caladinha.