Só nevoeiro...

Querida memória de curta duração, quem se não tu para apagares os vestígios das figuras ridículas em que constantemente tropeço.
Eu posso calçar o saltinho, vestir o casaquinho cintado e parecer muito selecta, mas mais cedo que tarde o meu verdadeiro eu barraqueiro emerge e vai reputação, vergonha e até integridade física desta para pior.
Ainda ontem (sim, curiosamente ainda não me esqueci) estava quase a passar por criatura civilizada, quando um gesto brusco arruinou o esforço de largos minutos de conversa de ocasião.
Gesto brusco da esteticista, a inconsciente, que me levantou a perna sem pré-aviso depois dela ter estado sossegadita naquela posição até "fossilizar". Foi tal a guinada que ía caindo da chaise longue para fora e quase me esquecia dos choques que tinham precedido o sucesso.
Choques, um laser dá choques! Uma depilação definitiva é "chocante"!!! E a mim deu-me um ataque de riso. 50 disparos dá muita gargalhada. Isto começou logo a levantar suspeitas à esteticista quanto à minha seriedade. Quando cá a "rinhosa" praticamente se atira do sofá abaixo, não lhe restaram dúvidas! Nem podiam restar, porque a minha linda figura acabava com elas. "Notícias da beira: um voo picado quase vitimou jovem (cof, cof) que na altura não envergava calças." Exactamente, sem calças mas de botinha bicuda. Só faltava o chicote! Se por acaso calho a partir uma perna escandalizava também os homens do INEM!
Enfim, a erradicação dos pêlos é uma boa causa, vale bem um ou dois momentos embaraçosos...
Mas não contente e já recomposta estive à beira ter mais uma saída para esquecer à velocidade de TGV. Afirmações tão banais como "agora não se exponha ao sol durante uma semana" despertam os meus instintos mais despudorados e um "pois concerteza, esta semana não há perna escanchada e pachacha ao sol para ninguém!" esteve pendurado desta boca rota para fora. Era mais um episódio para... apagar.
Se não fosse a minha memória (a falta dela) como poderia eu sair à rua? A lembrança de barracas passadas e a certeza de escândalos futuros fariam de mim uma eremita.
Inevitavelmente esqueço-me também das coisas boas, mas essa deixam um bom sabor de boca. E tenho sempre a camarada folha de papel. Para me lembrar de que já fui feliz, mesmo quendo não havia merenda envolvida.
As catástrofes sociais também lá estão. Mas a expressão "virar a página" deve ter tido a sua origem num qualquer antepassado pouco discreto e desafortunado de "je"!