
Acabaram-se os posts abstractos.
Acabaram-se as reflexões profundas.
Os meus leitores interpretam-nas sem hesitar como reflexos do que naquele momento se passa na minha vida.
Se porventura tenho o azar de escrever acerca das dificuldades da vida, receberia comentários a tentar demover-me do suicídio... Para preservar a minha mãezinha de umas quantas chamadas de alerta bem intencionadas decidi continuar a escrever apenas barbaridades pouco ou nada inócuas.
Assim, aproveito para dedicar este post ao meu Atlas.
Contra todo o prognóstico, não sou uma freak da geografia, mas o meu atlas é companheiro para todas as ocasiões.
Se estou no sofá o meu atlas está comigo. Sento-me na almofada fofa e sem que me aperceba já saltou para cima das minhas pernas.
Muitas linhas foram escritas sobre ele, quase todos os livros que li estiveram recostados nele, conhece de gingeira o meu tabuleiro da ceia.
O meu atlas é a minha secretária, sempre ali, na pratelaeira ao lado, tão disponível. E não é só da capa que abuso, também para o interior tenho uso: guarda tudo o que são recortes a não perder ou flores a espalmar. Não é pisa papéis, mas torna os pisa papéis supérfulos.
Não me julguem oca por não dar valor ao conteúdo... o meu atlas pode não ser do tempo dos afonsinhos, mas é do tempo da URSS.
Coisa que não descuro é a sua aparência. Tem já várias camadas de fitacola e à medida que se descora vou cobrindo o azul em falta com uma caneta... azul.
O meu atlas é velho, obsoleto e não particularmente bonito. Mas é o meu atlas, um objecto que faz parte da minha rotina desde sempre (mais ou menos desde o tempo da URSS) e tenho por ele um carinho especial. Não consigo partilhar do desapego em relação às coisas que é hoje lugar comum. Mastigar, mastigo, deitar fora... é muito mais complicado.
E fico por aqui porque noto que estou a descambar novamente para a meditação e ainda me perguntam os caríssimos se guardo uma lixeira em casa...