Simão

Tardes de saldos em dias de reflexão pré-eleitoral e final de mês, encontros imediatos de 4º grau (pelo menos) com uma foto da minha irmã em poses pouco ortodoxas numa página (pouco)escondida do Público, um Arguido que ladra a meio de uma audiência... tudo notícias dignas de páginas e páginas para reciclar (diário electrónico nunca foi, ao contrário do velho jornal, grande coisa como substituto do papel higiénico).
Mas a notícia/homenagem de hoje é a encarnação da persistência "como quem não quer a coisa".
É gordo e peludo, mas não é o Tony Ramos.
É louro e tem o rabo grande, mas não é o Herman José.
É exibicionista e gosta de festas, mas não é um striper.
Tem bigodes e mia... mt audivelmente!
Chama-se Simão e é o gato da minha avó.
Um tapete amarelo cheio de mimo. O que não seria de estranhar se fosse um gato doméstico. Só que não é. A minha avó é apologista do apartheid entre pessoas e animais. Portanto as galinhas, os coelhos, as cabras e os gatos não frequentam a casa. São apenas vizinhos. Os gatos são verdadeiros ocupas. Invadiram um palheiro velho, leram a bíblia e seguiram à risca o "crescei e multiplicai-vos".Andam há gerações a tentar ganhar o céu cumprindo escrupulosamente este mandamento de Deus.
O Simão é tataraneto da depravada original. E, tal como D. Sebastião, é uma compilação dos defeitos, manias e paranóias das gerações anteriores, sem a tradicional atenuante de "záscatrapás-era uma vez um rato". Tenta compensar com mimo - ronrona aqui, roça-se ali e vai receber-nos sempre que chegamos à aldeia. Talvez porque trazemos sempre à boleia um balde de restos.
Mas mesmo quando os restos já eram gosta de atestar a sua eterna fidelidade e "deixa-se estar". Um pendura à moda antiga, que ocasionalmente se transfigura em vela assumida e que não deixa créditos por mãos alheias. Quem não aparece desaparece, portanto o melhor é abrir caminho por entre os pés e rebolar que nem um carente de exorcismo enquanto se afiam as unhas nas nossas calças de ganga ou roçar-se até caírem as pulgas por força da erosão. O que é um beijo quando se pode ter tal demonstração de carinho que nem à força de um "vai-te embora" esmorece? É um inoportuno compulsivo que tem sempre um plano B para captar a atenção: miar que nem um desvairado! Um garante da moral e dos bons costumes, que ocasionalmente sobe a uma árvore à procura de uma coruja distraída (todo a melga tem direito aos seus momentos de loucura).
Se eventualmente já não há parzinho para atazanar acabará sempre por descobrir a adega onde se enfiou o meu pai para informar que a hora do vitinho dos alcoolicamente alegres já passou...