
Eu acho que no fundo escolhi a profissão errada.
Devia ter seguido a minha verdadeira vocação. Apesar das críticas, apesar de não ter futuro, apesar de ser assaz badalhoca.
Não o fiz, mas continuava tão presa à vocação esquecida na prateleira das opções de vida que a transformei em... passatempo.
Agora não me limito a ter uma profissão esgotante, tenho um entretém que me consome.
Ser consumida por tralhas e velharias não é nada saudável e geralmente conduz à vagabundagem. Só que eu sempre sonhei ter o meu próprio carrinho de compras e um rafeiro sarnento. Tralhas e velharias com acessórios... ai, ai.
Como tenho profissão tenho se deixar a vagabundagem para outra vida (não me parece que nesta os criminosos venham a escassear), o que não implica que não possa ir entretanto recolhendo...
Não falo sequer na dependência das pequenas coisas, de um pedaço de lenço ranhoso, de um bilhete de autocarro usado, de um autocolante de bolycao, que tiveram o azar de se cruzar com um momento da minha vida digno de menção, condenados a ser fitacolados no meu diário, que partilha das minhas manias sem que lhe seja pedida licença.
Falo de "caça grossa". Falo de coisas que deixaram passar a oportunidade de ir parar ao lixo e acabaram por vir parar às minhas mãos. Coisas que me obrigam a vasculhar palheiros velhos e a snifar muita ferrugem. Ferramentas, vasilhas, arados, máquinas de costura, camas, chaves, baldes, serrotes, pratos, talheres, malgas de resina... nada escapa à minha lixa e/ou ao meu pincel.
Este feriado... uma feira de coleccionismo, uma loja de doces... venha o diabo e escolha. Como a feira é só uma vez no ano, foi a feira o que eu escolhi. Um passeio familiar que viu pai e mãe debandarem com receio de verem as carteiras esfoladas. A mana, essa, um dia destes arranja um carrinho de compras e um rafeiro para ela...
Um chocalho e uma maçaneta, as novas aquisições. A minha lixa até vibra de ansiedade.